A Banca de Jornal da Rua das Flores e o Frio de Curitiba (Crônica Urbana 2026)
Às seis da manhã, Curitiba não acorda: ela se desembrulha de um cobertor de lã cinzenta.
O jornaleiro da Rua das Flores limpava o balcão de fórmica com um pano úmido que ameaçava congelar em pleno ar.
Um cliente assíduo aproximou-se com o casaco abotoado até a altura do queixo e o cachecol cobrindo metade da boca.
— Bom dia, seu Valdir.
— Se você diz...
— Três graus na Praça Osório.
— No inverno de setenta e cinco foi menos dois e ninguém ficava com esse alarde todo na televisão.
Folheavam a primeira página em silêncio cortante.
Um corvo pousou no calçamento de petit-pavé em formato de pinhão, olhou para os dois homens, sacudiu as penas geladas e pareceu concluir que a humanidade era uma espécie excessivamente friorenta para merecer debate.
O cliente pagou a moeda exata.
Nem um centavo a mais, nem um a menos.
Afundou as mãos nos bolsos e seguiu caminhando em linha reta, com a dignidade solitária de uma estátua que tomou café preto sem açúcar.
Cristiano Ricardo — Escritor
Crônicas Brasileiras & Flagrantes do Cotidiano · Publicado em 01/06/2026 às 05:35.








